As parábulas são sempre fontes de reflexão. São narrativas breves que explicitam ocorrências da cultura de um povo, que nos levam a raciocinar sobre questões morais, às vezes muito complexas.
Conta-se que um velho mestre vivia com seus discípulos em um templo muito arruinado. Viviam de esmolas e doações. Num determinado dia o mestre disse para seus discípulos: “Cada um de vocês devem ir à cidade e roubar bens que serão vendidos e, assim, arrecadaremos dinheiro para reformar nosso templo. Vocês não podem ser vistos por ninguém”.
Os discípulos ficaram espantados, pensaram no quanto isso poderia manchar suas reputações. Foram orientados para praticar atos ilegais e imorais. Roubar é uma coisa muito errada! A causa é boa, mas o ato é extremamente imoral. No final, todos foram para a cidade, menos um deles. O mestre perguntou:
- Por que você ficou para trás?
O discípulo respondeu:
- Eu não posso seguir as suas instruções para roubar onde ninguém esteja me vendo. Não importa aonde eu vá; sempre estarei olhando para mim mesmo. Meus próprios olhos irão me ver roubando”. O sábio mestre o abraçou e disse: “Eu estava testando a integridade dos meus estudantes e você é o único que passou no teste”.
A parábula narrada nos conduz imediatamente à Ética. Ética é a arte de viver bem humanamente. É o conjunto de princípios e regras que fundamentam as razões (últimas) das nossas decisões cotidianas. Distingue o certo do errado, o bom do mau etc. A Ética, no entanto, está no plano teórico. A moral é que está no plano prático. Moral é o conjunto dos princípios que regem (ou deveriam reger) nossos comportamentos concretos. O comportamento dos discípulos de roubar bens foi imoral. Além disso, também feriu a regra ética que diz: não faça aos outros o que você não quer que façam com você! Mas por que a maioria dos discípulos decidiu pelo mal?
A maioria dos discípulos decidiu pelo mal (pelo roubo) porque não refletiram detidamente sobre a “ordem” dada. Nem se atinaram para o fato de que toda ordem é externa (vem de fora). Toda vez que você se depara com uma ordem, preste atenção no seu conteúdo e na sua natureza. Naturalmente ela é externa.
A Ética diz respeito ao foro interno da nossa vontade. Somos livres (em geral) para decidir pelo bem ou pelo mal. Mas o preço que pagamos por essa liberdade reside na responsabilidade. Pelos atos que praticamos devemos ser sempre responsáveis.
Nos concretos atos da nossa vida, quando em jogo está o (superior) plano ético, você não tem que perguntar a ninguém o que deve ser feito. Pergunte a você mesmo. Faça como o discípulo vitorioso da parábula narrada, que não aderiu ao grupo majoritário. A dissidência, muitas vezes, está na raiz dos bons comportamentos morais (e éticos). Nem ordens nem costumes, nem prêmios nem castigos: nada disso que é externo a você pode conduzir suas decisões éticas.
A questão em jogo, claro, é a liberdade. Nossa liberdade de fazer ou não fazer determinada coisa. Praticar ou não praticar um determinado ato. Faça bom uso da sua liberdade. E não pergunte aos outros o que você deve fazer com ela. Assuma-a. Porque somente ela é que pode te guiar nos seus atos.
A ética é um dos maiores fardos que temos que carregar diariamente, se queremos aprender a “arte de viver bem humanamente”. Porque em vários momentos temos que tomar decisões complexas. Não podemos deixar o tempo passar, como se nada tivéssemos que decidir. A vida não é assim. Viver bem humanamente não é só deixar o tempo se escoar. Uma omissão muito grave pode arruinar sua vida.
Enquanto vivemos, não temos que apenas viver, temos que viver “bem”. E para viver bem temos que fazer bom uso da nossa liberdade. Nós “não somos livres de não ser livres” (Savater, Ética para Amador). Ou seja: não temos outra saída. Temos que ser livres (e assumir todos os encargos dessa liberdade). Temos que ser livres porque efetivamente somos, dentro de certos limites e de certas circunstâncias, livres.
E se você diz que não quer saber nada desse negócio de ser livre, que você está farto desse discurso, que esse negócio de liberdade gera muita responsabilidade, que você quer se colocar nas mãos de alguém (de algum pastor, de algum mestre ou guru etc.), que você prefere ser servo (escravo) de alguém? Pois, até neste momento, talvez sem perceber, você está fazendo uso da sua liberdade. É que “Estamos todos condenados à liberdade” (como dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre). Temos liberdade até para decidir que não queremos ser livres. Nesse caso você elegeu não decidir as coisas por você mesmo, não eleger suas decisões por você mesmo. Suas decisões serão eleitas por outros. Isso pode até te trazer um certo conforto psicológico e/ou moral, mas não o afasta (totalmente) da responsabilidade de tudo aquilo que acontece em sua vida.
Sendo assim, embora seja um fardo bastante pesado, o melhor mesmo é continuar sendo dono das suas decisões. Melhor ainda é procurar fazer bom uso da liberdade.
(Luiz Flávio Gomes - http://www.blogdolfg.com.br)

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